Há amores que não acabam porque nunca puderam começar.
Há pessoas que passam anos tentando esquecer alguém.
Mudam de cidade.
Conhecem outras pessoas.
Começam outras histórias.
E, ainda assim, alguma coisa permanece.
Nem sempre é amor.
Às vezes é uma espera.
Muito anterior ao encontro.
Quando alguém diz “não consigo esquecê-lo”, talvez a pergunta não seja quem era aquele homem ou aquela mulher.
Mas o que, através dele, continuava sendo esperado.
Alguns encontros chegam habitados.
Antes do primeiro beijo, antes da primeira palavra, já carregam uma tarefa impossível.
Ser, enfim, o olhar que faltou.
A escolha que nunca veio.
O lugar que nunca se encontrou.
Talvez seja por isso que certas separações doam tanto.
Não porque perdemos apenas alguém.
Mas porque, mais uma vez, perdemos a esperança de que, desta vez, seria diferente.
A psicanálise chama isso de repetição.
Mas repetir não é voltar ao mesmo.
É continuar perguntando, por caminhos diferentes, aquilo que nunca encontrou resposta.
Lacan dirá que amamos a partir da falta.
E talvez seja por isso que nenhum amor consiga reparar aquilo que nasceu antes dele.
Há relações que não terminam porque nunca chegaram a existir como encontro.
Desde o início, estavam ocupadas por outra cena.
Não era apenas aquele homem.
Não era apenas aquela mulher.
Era uma pergunta muito mais antiga.
Agora, finalmente, alguém vai me escolher?
Enquanto essa pergunta permanece aberta, o outro quase desaparece.
Amamos menos quem ele é do que aquilo que imaginamos que ele poderia nos devolver.
Não um amor.
Um lugar.
Mas há um dia em que alguma coisa cansa.
Não de amar.
De esperar.
E talvez seja aí que um amor possa começar pela primeira vez.
Não quando encontramos alguém capaz de preencher nossa falta.
Mas quando já não pedimos ao amor que faça esse trabalho.
Há pouco tempo escrevi:
“Não quero mais que ninguém, nem o amor, me dê lugar nenhum.”
Demorei para entender o que essa frase dizia de mim.
Hoje penso que ela talvez não fale do fim do amor.
Fale do fim da espera.
Porque há esperas que pertencem à infância.
E nenhum relacionamento deveria carregá-las.
Talvez alguns amores não acabem porque nunca puderam começar.
E talvez amar comece justamente quando desistimos de pedir ao outro aquilo que nunca esteve nas mãos dele oferecer.
Gabrielle da Motta