“Pois nela não há lugar que não te mire.”
— Rilke, Torso Arcaico de Apolo
O vivo não tem forma.
Não tem previsão.
É assustadoramente excitante.
E, no mais —
eu vi.
Não tem como desver.
Rilke escreve sobre o torso arcaico de Apolo, uma estátua sem cabeça, sem olhos, sem aquilo que, à primeira vista, seria necessário para olhar.

E, no entanto, termina o poema dizendo:
“Pois nela não há lugar que não te mire.”
É uma frase estranha.
Como pode uma coisa sem olhos nos olhar?
Talvez porque olhar não seja exatamente o mesmo que ver.
Lacan faz uma distinção entre o olho e o olhar.
O olho vê.
O olhar, às vezes, nos encontra.
Não se trata simplesmente daquilo que vemos, mas de algo que aparece no campo da visão e nos faz perceber que não somos inteiramente donos do que vemos.
Eu olho.
Mas também sou olhada.
Não necessariamente por alguém.
Às vezes, por uma coisa.
É aí que alguma coisa se desloca.
A paisagem deixa de ser apenas paisagem.
A fotografia deixa de ser apenas fotografia.
O corpo deixa de ser apenas corpo.
Alguma coisa me toca de um lugar que eu não sei localizar.
Talvez seja por isso que o olhar seja tão perturbador: ele não está completamente sob nosso comando.
Há desconhecidos que a gente reconhece.
Não sei explicar isso.
Talvez porque o reconhecimento nem sempre aconteça pela memória.
Às vezes o corpo reconhece antes.
Um jeito de andar.
Uma voz.
Um cheiro.
Um gesto.
Um rosto que nunca vimos.
Uma mão.
Um modo de alguém sustentar os olhos sobre nós.
E então alguma coisa dentro do corpo diz:
é.
Mesmo que a cabeça não saiba o quê.
Talvez por isso eu goste tanto da ideia de que o corpo não é completamente domesticável.
Ele guarda coisas que não sabemos que guardamos.
Deseja coisas que não decidimos desejar.
Reconhece caminhos que nunca percorremos conscientemente.
O corpo vê de outro modo.
Ou talvez não veja.
Talvez seja visto.
Talvez olhar seja uma pequena experiência de descentramento.
Por um instante, eu deixo de ser aquela que olha.
Não sou mais o ponto de onde tudo parte.
Existe alguma coisa diante de mim que me devolve uma pergunta sem palavras.
O que você está fazendo aqui?
O que você está vendo?
O que, em você, está sendo visto?
Não sei.
E talvez seja justamente aí que começa alguma coisa.
Não tenho como desver.
Não porque agora eu saiba.
Mas porque vi.
E há uma diferença enorme entre saber e ter visto.
O saber pode ser esquecido.
O olhar, às vezes, fica.
Fica como uma pequena coisa acesa.
Uma coisa que não pede nome.
Uma coisa que não se deixa capturar.
Uma coisa que, de vez em quando, volta a nos olhar.
E então percebemos:
não fomos nós que encontramos aquilo.
Aquilo nos encontrou.
E talvez seja essa a parte mais estranha.
E a mais excitante.
Porque, quando alguma coisa nos olha de volta,
já não sabemos muito bem
quem está vendo quem.
Torso arcaico de Apolo
Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltadoDetém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.De outro modo erger-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros.
E não tremeria assim, como pele selvagem.E nem explodiria para além de todas as fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.Rainer Maria Rilke