O que é o objeto a de Lacan? Por que o desejo nunca encontra aquilo que procura?
Há uma pergunta que atravessa quase toda análise:
Por que, mesmo quando consigo aquilo que queria, continuo desejando?
Lacan respondeu a essa pergunta com uma invenção.
Chamou-a de objeto a.
O objeto do desejo nunca é exatamente um objeto.
Não é um corpo amado.
Não é o olhar de alguém.
Não é um seio, uma voz, um filho, um livro, uma casa.
Tudo isso pode ocupar seu lugar por um tempo.
Mas nenhum deles é o objeto a.
Porque o objeto a não é aquilo que desejamos.
É aquilo que faz desejar.
Nunca perdemos apenas um objeto.
O que perdemos é a fantasia de que um dia seríamos inteiros.
Desde então, o desejo gira.
Inventa nomes.
Troca de endereço.
Acredita que agora encontrou.
Logo descobre que não.
E continua.
Não porque falhou.
Mas porque nasceu da falta.
O objeto a não preenche essa falta.
Também não é a falta.
É o que faz o desejo nascer a partir dela.
Tenho pensado que o objeto a nunca se deixa olhar diretamente.
Ele aparece de lado.
Num detalhe.
Num jeito de rir.
Numa pausa antes de responder.
Na curva de uma nuca.
Num timbre de voz.
Num silêncio.
Num sonho.
Num brilho impossível de explicar.
É curioso.
Quase nunca nos apaixonamos pela pessoa inteira.
Apaixonamo-nos por um resto.
E depois inventamos uma pessoa para justificar esse resto.
Lacan diz que o olhar também pode ocupar esse lugar.
Não os olhos.
O olhar.
Há um instante em que deixo de ser apenas quem olha.
Alguma coisa me captura.
Não sei explicar por quê.
Mas, desde então, desejo.
Talvez a análise não seja o lugar onde encontramos aquilo que faltava.
Talvez ela apenas nos faça perceber que nunca foi disso que o desejo precisava.
Porque o desejo não caminha em direção ao objeto.
É o objeto a que o coloca em movimento.
E talvez viver seja justamente isto:
deixar de procurar aquilo que nos completaria,
para começar a sustentar, sem tantas promessas,
o modo absolutamente singular pelo qual desejamos.
Gabrielle da Motta