O que é transferência na psicanálise? Quando falar com alguém faz alguma coisa aparecer

O que é transferência na psicanálise? Quando falar com alguém faz alguma coisa aparecer

Aquilo que consegue passar

Às vezes a gente começa a falar e não sabe muito bem onde vai dar.

Uma palavra puxa outra.

Uma lembrança aparece.

Depois outra coisa atravessa.

Um nome que parecia esquecido.

Uma história que não tinha nada a ver.

Um silêncio.

E, de repente, estamos falando de alguma coisa que não sabíamos que queríamos dizer.

Mas nem tudo passa.

Há coisas que chegam perto e recuam.

Como se alguma parte de nós soubesse o caminho e outra fechasse a porta.

Então a palavra encontra uma fresta.

Passa como consegue.

Nunca inteira.

Talvez seja assim que alguma coisa começa a aparecer.

Mas há uma diferença quando não estamos falando sozinhos.

Quando existe alguém ali.

Alguém que escuta.

Porque, sem perceber, começamos a esperar alguma coisa desse outro.

Que ele entenda.

Que saiba.

Que veja aquilo que nem nós conseguimos ver.

Às vezes até imaginamos que ele guarda alguma coisa que nos falta.

Um pequeno tesouro.

E talvez seja também por isso que alguém se apaixone, confie, se decepcione, se irrite.

Não apenas pelo que o outro é.

Mas pelo que imaginamos que ele possa ter.

Na análise, esse lugar é delicado.

Porque o analista não está ali para entregar o tesouro.

Não para dizer:

é isso que você é.

É isso que você quer.

É isso que está faltando.

Se ele respondesse assim, talvez a pergunta terminasse antes de começar.

Então ele escuta.

E deixa alguma coisa aberta.

A pessoa fala.

Alguma coisa aparece.

Outra coisa recua.

Uma palavra leva a outra.

Uma lembrança muda de lugar.

Aquilo que parecia esquecido retorna diferente.

E, aos poucos, talvez a questão não seja descobrir finalmente quem somos.

Mas perceber os modos pelos quais alguma coisa em nós consegue aparecer.

Uma palavra.

Um desejo.

Uma falta.

Um resto.

Algo que não estava pronto antes de ser dito.

Talvez a análise seja também isso:

não encontrar uma resposta escondida em algum lugar,

mas continuar escutando o que acontece quando falamos.

Porque cada palavra pode abrir outra.

Cada falta pode fazer nascer outra pergunta.

E aquilo que não passou hoje

talvez encontre uma passagem amanhã.

Não para chegar a algum lugar definitivo.

Mas para continuar.

Talvez o caminho seja isso:

alguma coisa passa,

alguma coisa fica,

e depois

a gente tenta dizer outra vez.

Gabrielle da Motta