A relação entre mãe e filha continua atravessando muitas mulheres mesmo na vida adulta. A psicanálise ajuda a pensar por que algumas separações parecem tão difíceis e como uma filha pode, aos poucos, encontrar um lugar próprio no desejo.
Há mulheres que nunca deixaram de ser filhas.
Não porque a mãe tenha morrido.
Mas justamente porque continua viva.
Viva por dentro.
Na voz que antecede cada escolha.
Na culpa que chega antes do desejo.
Na necessidade de transformar cada alegria numa autorização.
Nascer parece uma coisa que acontece uma única vez.
Talvez não.
O corpo nasce.
A filha, às vezes, demora décadas.
Há mães que amam.
Há mães que cuidam.
Há mães que fizeram tudo o que puderam.
Ainda assim, alguma coisa permanece colada.
Porque separar-se nunca foi deixar de amar.
É deixar de precisar existir no lugar que a mãe imaginou.
Penso em Sonata de Outono.
Não vejo apenas uma mãe incapaz de alcançar a filha.
Vejo uma filha que continua oferecendo a própria vida à esperança de finalmente ser vista.
Talvez seja isso que resista ao tempo.
Não exatamente o que aconteceu.
Mas aquilo que nunca aconteceu e continua pedindo uma segunda chance.
Algumas esperas sobrevivem às pessoas.
Mudam apenas de nome.
Chamam-se amor.
Casamento.
Filhos.
Trabalho.
Sucesso.
Mas continuam fazendo a mesma pergunta.
Agora, alguém vai me escolher?
É por isso que certos encontros parecem tão decisivos.
Não encontramos apenas alguém.
Encontramos a possibilidade de reescrever uma cena muito antiga.
E quase sempre fracassamos.
Não porque o amor falhe.
Mas porque nenhuma história consegue acontecer no lugar de outra.
Talvez o acontecimento seja justamente este.
Descobrir que ninguém poderá voltar ao primeiro olhar.
Que ninguém fará nascer, hoje, a filha que um dia esperou existir dentro dos olhos da mãe.
Há algo profundamente triste nisso.
E profundamente libertador.
Porque, quando essa esperança cai,
não sobra apenas a falta.
Sobra uma mulher.
Uma mulher que já não precisa esperar ser escolhida para começar a viver.
A mãe continua viva.
Continua sendo mãe.
Continua faltando.
Mas já não ocupa todo o horizonte.
E talvez seja só aí que uma filha realmente nasça.
Não quando deixa a mãe.
Nem quando deixa de amá-la.
Mas quando deixa de pedir que ela lhe devolva um nascimento que já passou.
Porque há nascimentos que nenhuma mãe pode oferecer.
Eles acontecem depois.
No instante em que alguém, pela primeira vez,
ousa desejar em nome próprio.
Gabrielle da Motta